A eleição acabou. O que muda e o que continua nas suas mãos
Por Geison Nascimento
26 de outubro de 2026 · Projeto Bora Destravar as Finanças
A eleição presidencial terminou. Agora começa a parte que exige menos torcida e mais lucidez: entender o que uma mudança política pode influenciar no seu bolso — e o que nenhuma vitória nas urnas fará no seu lugar.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, no segundo turno de 2026. O resultado encerra uma disputa apertada, mas não encerra as perguntas que realmente importam para a vida de uma família: o emprego vai se manter? O custo de vida vai caber no orçamento? O crédito ficará mais caro ou mais acessível? Haverá mudança de impostos? [1]
Essas perguntas são legítimas. Política econômica não é assunto distante de quem paga aluguel, compra mercado, administra uma empresa ou tenta sair das dívidas. Ela afeta o ambiente em que as famílias vivem.
Mas há uma segunda verdade, menos confortável e igualmente necessária: nenhum governo organiza o seu orçamento, cria sua reserva de emergência ou interrompe sozinho o ciclo de gastar para aliviar uma ansiedade.
Este não é um texto para minimizar a importância da eleição. É um convite para não entregar a sua vida financeira inteira a ela.
Primeiro: o resultado não muda o seu extrato nesta segunda-feira
Uma eleição pode alterar prioridades de governo, projetos, negociações no Congresso, regras e expectativas da economia. Mas ela não muda, da noite para o dia, o vencimento do seu cartão, o contrato do seu financiamento ou o preço que você paga no supermercado.
Isso importa porque o dia seguinte a uma eleição costuma produzir dois impulsos perigosos: euforia e pânico. Um faz a pessoa acreditar que agora tudo vai se resolver. O outro empurra decisões precipitadas — vender investimentos, assumir dívidas, adiar planos ou consumir por ansiedade.
As duas reações têm o mesmo problema: tiram a decisão da realidade e entregam ao humor do momento.
O cenário econômico que o novo mandato recebe é concreto. Em setembro, o IPCA avançou 0,82% e acumulava 4,58% em 12 meses, segundo o IBGE. No mercado de trabalho, a taxa de desocupação foi de 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o equivalente a aproximadamente 5,8 milhões de pessoas desocupadas. [2][3]
São números que ajudam a enxergar o país, mas não substituem a leitura da sua casa. Uma taxa nacional não mostra se a sua renda é estável, se você está endividado ou se um aumento de R$ 100 no mercado já aperta o seu mês.
O que uma eleição pode afetar no seu bolso

1. Juros e crédito — mas não por um botão na mesa do presidente
Quando se fala em vida financeira, a taxa de juros merece atenção. Ela influencia o custo do crédito, as parcelas, o retorno de investimentos conservadores e o ritmo de consumo e atividade econômica.
Hoje, a Selic está em 13,75% ao ano, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. O Copom se reúne periodicamente e toma suas decisões com base em inflação, atividade econômica, emprego, crédito e riscos para o cenário. [4]
Isso significa que não é correto dizer que um presidente “baixa” ou “sobe” juros sozinho. O governo eleito pode influenciar o contexto por meio de suas escolhas fiscais, de suas propostas e da confiança que suas decisões geram. Mas a definição da taxa básica é uma atribuição do Banco Central, e o caminho entre uma promessa de campanha e uma prestação menor no seu financiamento é longo.
Para quem tem dívida, a conclusão prática é simples: não espere uma mudança política para fazer o que a sua dívida já exige agora. Confira taxas, vença o rotativo, compare propostas de renegociação e só aceite parcelas que caibam também no mês ruim — não apenas no mês em que você está esperançoso.
2. Inflação e custo de vida
A inflação é uma das formas mais silenciosas pelas quais a política econômica aparece na rotina. Ela não vem como uma cobrança separada. Aparece no carrinho de supermercado menor, na conta de luz mais alta, no combustível, no remédio e na sensação de que o salário termina antes do mês.
Decisões sobre orçamento público, impostos, energia, infraestrutura, comércio e programas sociais podem afetar preços ao longo do tempo. Mas seria desonesto prometer que a eleição, por si só, fará os preços cair ou subir em uma direção determinada. Há fatores que nenhum governo controla integralmente: clima, safras, câmbio, preço internacional de energia e crises externas.
O que você controla é impedir que a inflação vire desculpa para a desorganização. Se o custo de vida aumentou, não responda apenas com culpa ou com mais crédito. Refaça as prioridades, identifique os gastos que cresceram e proteja o essencial antes de tentar manter um padrão que já não cabe na renda.
3. Trabalho, renda e oportunidades
O nível de emprego brasileiro está entre os indicadores que mais pesam na vida das famílias. Políticas de investimento, qualificação, crédito para pequenos negócios, infraestrutura, regras trabalhistas e gasto público podem criar — ou restringir — oportunidades ao longo dos anos.
O programa registrado no TSE pela chapa vencedora lista, entre suas prioridades, temas como responsabilidade fiscal, renegociação de dívidas, reforma tributária, apoio a micro e pequenas empresas, trabalho por aplicativos e valorização do salário mínimo. [5]
Mas proposta não é lei. E lei não é resultado imediato. Entre uma intenção de governo e um efeito na vida real existem orçamento, regulamentação, Congresso, execução e tempo.
Por isso, acompanhe as medidas concretas, não apenas as manchetes ou os discursos. Para a sua carreira, continue fazendo a pergunta que nenhuma eleição responde: o que aumenta a minha capacidade de gerar renda e permanecer relevante, independentemente do cenário?
4. Impostos, serviços públicos e proteção social
Tributos e serviços públicos fazem parte do orçamento, mesmo quando não aparecem como uma linha na sua planilha. Impostos incidem no consumo; transporte, saúde, educação e assistência reduzem ou ampliam custos que uma família teria de assumir sozinha.
É razoável cobrar do governo clareza sobre gastos, prioridades e resultados. É razoável acompanhar mudanças tributárias antes de tomar decisões de consumo ou de negócio. O que não é razoável é tratar cada boato como se fosse uma lei em vigor.
Uma boa regra é esta: não mude seu planejamento por rumor político. Mude-o quando houver uma medida oficial, compreendida e relevante para a sua realidade.
O risco de terceirizar a própria vida financeira
Há pessoas que passam quatro anos dizendo que não conseguem prosperar por causa de quem está no poder. Às vezes, o contexto realmente é duro. Negar isso seria insensível.
Mas existe um ponto em que a crítica legítima vira paralisia. É quando a pessoa começa a usar a política para não olhar para aquilo que também está sob seu alcance: a dívida que precisa ser enfrentada, a reserva que nunca começou, a conversa sobre dinheiro que a família evita, o consumo que virou recompensa emocional.
No meu trabalho com finanças comportamentais, vejo que a mudança raramente começa quando o cenário externo fica perfeito. Ela começa quando a pessoa para de esperar a segurança total para tomar a próxima decisão possível.
É essa a base do Método L9: compreender a intenção por trás de uma escolha, reconhecer as barreiras que impedem a ação e lidar com a emoção que muitas vezes assume o volante no lugar da razão. Dinheiro não é só conta. É história, medo, desejo, comparação, culpa e liberdade.
O país precisa de boas políticas públicas. Mas cada pessoa também precisa de um plano que não dependa de uma promessa, de uma manchete ou do resultado de uma eleição.
Cinco decisões para tomar depois da eleição — independentemente do seu voto

- Faça um retrato honesto da sua vida financeira. Anote renda, dívidas, parcelas, gastos essenciais e quanto sobra — ou falta — no fim do mês. Sem clareza, toda notícia econômica parece maior do que ela é.
- Não tome decisões de investimento ou crédito para reagir ao resultado. Euforia e medo são péssimos consultores. Se uma decisão for relevante, dê a ela tempo, informação e, quando necessário, orientação profissional individual.
- Proteja a sua margem de escolha. Margem é ter algum recurso, algum prazo, alguma alternativa. Ela nasce ao reduzir compromissos que sufocam o mês e ao construir reserva, mesmo que pequena e gradual.
- Acompanhe indicadores, não apenas opiniões. IPCA, decisões do Copom, emprego e medidas oficiais dizem mais sobre a economia do que vídeos indignados ou promessas viralizadas. Consulte fontes como IBGE, Banco Central e órgãos públicos.
- Participe sem se abandonar. Cobrar políticas melhores é cidadania. Organizar a própria vida financeira também é. Uma coisa não substitui a outra.
A eleição acabou. A sua responsabilidade continua.
Você pode ter comemorado o resultado ou recebido a notícia com preocupação. As duas reações são humanas. Mas, depois delas, vem a pergunta que devolve poder para você:
O que eu vou fazer, a partir de hoje, para que a minha família tenha mais margem, menos medo e mais liberdade?
O governo tem responsabilidade sobre o ambiente econômico. Nós temos o direito — e o dever — de acompanhar, questionar e cobrar.
Mas ninguém conhece os seus boletos, os seus medos, os seus filhos e os seus sonhos melhor do que você.
A eleição acabou. A decisão mais importante da sua vida financeira continua sendo sua.
Continue essa conversa
No Instagram e no YouTube, eu falo todos os dias sobre dinheiro, comportamento e as escolhas que constroem liberdade financeira na vida real.
- Instagram: @ogeisonnascimento
- YouTube: Geison Nascimento
- Livro: LIBERDADE (L9) — O método comportamental para sair das dívidas, destravar a mente e construir riqueza
Eu sou Geison Nascimento, administrador, planejador financeiro, especialista em finanças comportamentais, psicanalista e autor de LIBERDADE (L9). Depois de 15 anos no sistema bancário, aprendi que liberdade financeira não é viver sem incerteza. É deixar de ser refém dela.
Fontes e referências
- Tribunal Superior Eleitoral — resultado do 2º turno das Eleições 2026. Acesso em 26 out. 2026.
- IBGE — IPCA: principais resultados de setembro de 2026. Acesso em 26 out. 2026.
- IBGE — PNAD Contínua: taxa de desocupação no trimestre encerrado em agosto de 2026. Acesso em 26 out. 2026.
- Banco Central do Brasil — Copom reduz a Selic para 13,75% ao ano, setembro de 2026. Acesso em 26 out. 2026.
- TSE — Propostas de Governo: Lula 2026. Acesso em 26 out. 2026.
Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui aconselhamento financeiro, jurídico, contábil ou de investimentos individualizado.
Publicação no Portal
AUTORGeison Nascimento
Planejador financeiro e psicanalista. 15 anos de bastidor bancário. A liberdade financeira começa antes da matemática.





